Verbete organizado
por:

Constância Lima Duarte e Diva Cunha

 



Palmyra Wanderley


Textos:

Carta pelo vento

É novo o portador da carta que ora escrevo,

Resposta que te devo.

Não mando pelo mar, pois o mar tem paixões,

E anda sempre ocupado,

Cheio de cuidado

Em conquistar os róseos corações

das conchas, que são noivas dos corais.

Por ele eu não te escrevo, nunca mais.

Este novo correio

É mais seguro e muito mais ligeiro...

Não me inspira receio,

Chegando aí primeiro

Que a luz da madrugada,

Promete-me voltar

Quando a luz do arrebol, a luz crepuscular,

Estiver aumentada,

Não ama como o mar. Apenas diz à flor,

Qualquer coisa de amor,

É triste. É muito triste.

Como eu, nunca o viste.

Escuto sempre o seu queixume eterno,

No verão, pelo estio e pelo inverno,

Misterioso, sutil é mais veloz

Que os rouxinóis...

Olha e vê tudo.

Não fala

E não é mudo.

As árvores embala...

Às vezes, o imagino uma ave rara,

De plumagem macia e muito clara,

Inquieta a voar de minuto a minuto,

Num vôo irresoluto,

Quando, zangado, as folhas arrebata,

Levando-as pelo chão, as corolas maltrata...

Mas quando bom, quando não se enfurece,

Tem cicios de prece...

Afaga e encrespa as águas das levadas,

Brancas, azuladas,

Dos regatos, dos rios.

Acompanha, em surdina, os doces murmúrios.

Todos sentem que passa e rumoreja,

Sem que ninguém o veja ...

Sabes quem é que eu descrever intento?

É o vento!!

Mensageiro de arminho,

Que parte num galope,

Para levar-te, assim é o meu desejo,

Em carta, transformado o meu carinho,

Meu coração em forma de envelope,

E no envelope o selo azul do beijo.

 

Que cheiro bom!

Que cheiro bom!...

Que coisa deliciosa

Cheirei, agora, como por encanto!...

Fosse, talvez, um cálice de uma rosa

Não cheiraria tanto.

De onde é que vem esse perfume assim?

Perfume novo e velho para mim,

Forte, tão forte, que me entonteceu,

Se mistura comigo e não sou eu? ...

Perfume que recorda o cheiro do teu lenço,

Mas não é,

Não é também incenso,

Mas se parece com insensação

Este perfume, a perfumar sem conta...

É que hoje cheirei de manhãzinha

A flor vermelha do teu coração

E fiquei tonta,

Tontinha....